
Fotos: Gonçalo Poço e Zimbro
Tem passado despercebida na comunicação
social a quase tragédia que poderia ter acontecido em Manteigas.
Também o poder político, excluindo
o de Manteiga, tem passado ao lado da situação. A CIMBSE parece que não existe.
A EN 232 é uma Estrada Nacional que
integra a rede nacional de estradas do Plano Rodoviário Nacional. Liga a cidade
de Mangualde à Vila de Belmonte, foi criada pelo Plano Rodoviário Nacional de
1945 (PRN 45 - Plano Rodoviário Nacional 1945), classificada em projeto como
estrada nacional de 2º classe, com uma extensão de 86 Km e um desnível positivo
de 2188 m.
Faz a ligação entre Mangualde,
Gouveia, Manteigas e Belmonte numa extensão de 86 Km, a maioria do seu traçado
está integrado na Serra da Estrela.
E o que aconteceu?
Um troço da EN 232 colapsou por via
do deslizamento de terras.
Para mais detalhes sugiro a revista
Zimbro da ASE, com detalhes da tragédia e propostas de soluç~so
https://www.revistazimbro.pt/2026/03/06/uma-solucao-para-o-troco-da-en232-entre-manteigas-e-a-pousada-de-sao-lourenco/
“A encosta da Carvalheira já teve
oportunidade de deixar a sua marca trágica para Manteigas, num historial que,
inclusive, justificou a presença dos Serviços Florestais no Município,
manifestando a necessidade de intervenção no local. Entre os diversos prejuízos
causados, destacamos o aluvião de 1804, cuja corrente arrastou casas, destruiu
propriedades e causou a morte de várias pessoas.”
Transcrevo uma explicação de técnica Daniela Teixeira
“Uma explicação simples do fenómeno
repentino, que transformou uma estrada em trilho.”
“Escorregamento da Mata da
Carvalheira, uma curiosidade geológica que o pode explicar (vou tentar ser
simples).
De acordo com a Carta Geológica
Simplificada 1:75.000, na zona do escorregamento, existe um filão de uma rocha
básica (material ígneo) que corta (“entra” pelas fraturas) os materiais do
Complexo Xisto-Grauváquico (CXG). De uma forma simplista, na foto da carta, o
filão é aquela manchinha roxa que se vê na zona da estrada afetada (apontada
com o palito) e que corta o que está representado a amarelo - Complexo
Xisto-Grauváquico (CXG).
Estes corpos filonianos, ao longo
do tempo, através de vários processos físico-quimicos, alteraram para materiais
argilosos de cor amarelo forte (dá-se a argilização dos feldspatos), cor que
está presente nos materiais afetados pelo escorregamento. Nos materiais
escorregados, também é possível ver pedaços de rocha bastante alterados –
saprólitos “rocha podre”. Ainda que se possa perceber a estrutura original da
rocha, esta desagrega-se facilmente (por vezes "esfarelam-se" à mão).
Este filão altera-se mais depressa
que os materiais mais resistentes do CXG, que por força da erosão, deu origem a
uma depressão que foi aproveitada por uma linha de água, a ribeira da vila.
Os materiais resultantes da
alteração do filão, são predominantemente argilosos e têm elevada sensibilidade
à água (recorrendo a uma expressão pouco geológica, ficam amanteigados).
Juntando a acção da sempre presente água subterrânea, à saturação do maciço
pela água das chuvas e ao grande declive da zona… kaput! O escorregamento
resultou do solo alterado do corpo filoniano (argiloso), que, saturado pelas
águas da chuva, escorregou (e continua a escorregar) sobre uma camada rochosa.
O corpo filoniano corta a estrada em dois pontos, como se vê na carta
geológica. Na estrada de cima, vêm-se fissuras no pavimento, na continuidade de
fissuras na estrada de baixo, delineando uma parcela da concha de
escorregamento (hoje não sei se ainda existirão ou se já foram à vida).
Tendo em conta as fissuras na
estrada de cima, a montante da concha de escorregamento, a zona afectada terá
cerca de 100m de largura. É grande! É um fenómeno geológico de livro.
Bom dia mundo”